Rápida interpretação – Jornal O Hoje

Interpretação simultanea

Rápida interpretação – Jornal O Hoje.

Rápida interpretação

São necessários uma boa fluência no idioma e um alto grau de concentração para ser tradutor simultâneo
JAÍSA GLEICE
Em 16/02/2013, 01:15
Ter apenas fluência numa língua não é suficiente para alguém tornar-se um tradutor ou um intérprete simultâneo. Especialmente no segundo caso, que trabalha diretamente com a oralidade, ao contrário do primeiro, que prima pela escrita, é necessário qualificação específica para lidar com esta técnica de comunicação, pela simples razão de imprimir ética e eficiência ao trabalho de transpor a barreira da língua, traduzindo com fidelidade a fala de um orador para seus ouvintes. Quem atua na área de tradução ou interpretação deve ter também um alto grau de concentração.

Formada em Música e Letras, Denise Lopes Rodrigues, 62, é uma reconhecida profissional do ramo. “Vivo deste trabalho há três décadas”, afirma. Mas a familiaridade dela com a interpretação simultânea do português para o inglês e vice-versa começou bem antes. Apaixonada por língua estrangeira – ela ainda fala espanhol e francês –, começou a estudar inglês aos 12 anos. Aos 15, participou de um intercâmbio para os Estados Unidos, onde morou durante oito anos e se formou na Universidade de Notre Dame, na Califórnia. “Isso foi preponderante para o meu desenvolvimento”, afirma. De volta ao Brasil na década de 1970, foi morar em Salvador (BA), onde começou a trabalhar com a interpretação simultânea.

Descobriu-se. Mais tarde, optou por morar em Goiânia, cidade onde nasceu e onde ainda moravam seus pais, e não abriu mais mão do ofício. “Meu primeiro evento foi voluntário. Traduzi a palestra de um pianista americano que veio à cidade a convite da musicista Belkiss Spenzière falar sobre a música clássica norte-americana”, lembra Denise. Desde então, ela não parou mais de atuar no mercado goiano de eventos. Segundo ela, que também é tradutora pública ou juramentada, as oportunidades para esse profissional são muitas.

Além dos congressos, há seminários, conferências, aulas e até atividades comerciais, como a visita de missões estrangeiras em busca de negócios. “Há sempre demanda, o mercado reconhece o valor desse profissional”, garante. E as perspectivas futuras são boas, visto que o Brasil está num momento de plena abertura comercial e acadêmica.

No site do Sindicato Nacional dos Tradutores (Sintra), há uma tabela com sugestão de valores para os serviços. Por exemplo, a tradução escrita de um idioma estrangeiro para o português está cotada a R$ 0,30 por palavra. Já para a interpretação simultânea em conferência de até 6 horas ininterruptas, com dois intérpretes, a remuneração é de R$ 1.400,00. No caso do alemão, que é mais raro, o valor pode saltar para R$ 1.600,00.

Qualificação teórica também é essencial
Denise alerta, no entanto, que não basta  falar fluentemente qualquer idioma. Tão importante quanto dominar uma língua estrangeira e suas peculiaridades é ter qualificação teórica também para fundamentar o trabalho. Ela tem curso de interpretação e tradução na Inglaterra, o que a habilitou a conhecer os meandros dessa técnica com proficiência. Ela explica que é importantíssimo procurar saber com antecedência o que o palestrante falará, já que nem sempre há domínio sobre temas inerentes a certas especialidades ou o glossário das mesmas. “A interpretação é uma caixa de surpresas e requer jogo de cintura”, destaca.

Há a barreira do sotaque que, às vezes, complica a tradução. Estatísticas também costumam ser um entrave. Se o palestrante está listando uma série de números ou especificidades, a atenção tem de ser redobrada. Nessa hora, a ajuda do parceiro da interpretação  mantém a qualidade do trabalho. “Já no caso das piadas sem graça, dependendo do evento, informo aos ouvintes que foi contada uma anedota ou piada e convido a todos a sorrir”, conta.

Quando aparecem palavrões ou gírias no contexto, a tradução exata vai depender do ambiente. “Eu funciono como a voz do outro, então, não posso censurar, mas em alguns casos mais formais é melhor omitir”, diz Denise. A emoção também precisa desaparecer. Risos ou voz embargada diante de um fato ou relato não combinam com a profissão. Com a interpretação simultânea, o que tem a ver mesmo é a atualização constante.

“O contato com o idioma estrangeiro deve ser constante, é necessário estar atualizado e se informar sobre os mais variados assuntos”, aconselha Inessa Leão Figueiredo, 31 anos, também intérprete e tradutora. Formada em economia e também em espanhol e francês pela Auburn University, no Alabama (EUA), a jovem presta serviços para quatro diferentes agências do ramo. Começou informalmente em 1999, nos Estados Unidos, onde morava com a família, como voluntária do trabalho social de informação a populações imigrantes, em Madison, no Estado americano de Wisconsin.

“Em 2005, participei das redes de intérpretes voluntários Babels e Viatransla, as quais servem aos movimentos e fóruns sociais mundiais. Este trabalho me levou a servir na Coreia do Sul e em Moçambique”, conta. Mesmo ano em que se formalizou profissionalmente no Brasil, sem deixar de lado as vivências no exterior. Entre 2006 e 2008, também esteve ligada a ações voluntárias na França e na Espanha. Inessa conta que tem percebido uma alta demanda por profissionais que dominam a língua espanhola. “Os negócios do Brasil com os países do continente têm impulsionado esta necessidade”, garante.

O ítalo-brasileiro Iraê Sassi, jornalista, 62 anos, cita ainda outra característica importante para quem atua como intérprete simultâneo: a criatividade. “Estar bem informado ajuda a encontrar a expressão linguística correta para o momento”, garante. Segundo ele, todo intérprete tem os famosos “brancos”, ou seja, às vezes, não encontra a palavra exata e, nesta hora, a atuação do parceiro de cabine é fundamental. “A gente se ajuda, então, humildade também é importante”, destaca.

Iraê morou 20 anos na Itália, onde fazia traduções regularmente em função da atividade que exercia na FAO, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura. A primeira experiência em tradução simultânea ocorreu em 1986, durante uma conferência entre o governo de Moçambique e a guerrilha da Resistência Nacional Moçambicana, que desde 1975 estavam em guerra civil. Nessas duas décadas, foram muitos trabalhos, alguns consideráveis. Em 2010, ciceroneou, ao lado do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, uma delegação italiana. Também esteve no Fica algumas vezes. “A minha vida favoreceu a profissão e a prática constante deu maturidade ao trabalho”, garante.

Sobre o italiano, Iraê afirma não ser um idioma tão popular, apesar de bonito, e exercer pouca atração sobre as pessoas, ao contrário das paisagens italianas que não param de atrair os turistas. “Há poucos tradutores-intérpretes fora do eixo Rio-São Paulo”, conta. Para quem deseja ingressar na profissão, ele aconselha investir sempre para aperfeiçoar o idioma. “A intensidade dos eventos depende da qualidade do trabalho apresentado”, reforça. Com a alegria de um típico italiano, Iraê ainda garante que a “a tradução simultânea mantém os neurônios ativos e ajuda a não envelhecer”.

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